sexta-feira, 10 de setembro de 2010   

 

 

O Quarto (cinco minutos)

Luis B. Reis


VOLTAR

O Quarto (cinco minutos).

Chovia , lentamente, na rua e no peito;
Chuva fria, peito quente de dor e tristeza,
leito de lágrimas e solidão, desamente dissipadas,
dia-a-dia, no peito e na face, leito inerte do sentimento.

Rareando a chuva, da rua, enxugando-se aos poucos a do peito,
espera ele , paciente , o tempo, a hora.
Aguarda arrrumando os cômodos da casa, o quarto, e o leito, peito.

Chega o momento, pelo mover das horas,
minutos hirtos, de espera aflita e paciente;
finalmente chega o estranho, o especialista, o inspetor, que avalia, olha.
Analisa cômodo a cômodo, o âmbiente, mobília, roupas.

Rapidamente observa, o tempo urge e há muito a relatar , o quarto.
Móveis pequenos, brinquedos velhos, livros de estórias, o cheiro;
intrigado, entreolha o anfitrião, o analisado, o objeto do estudo, que o recebe, prostrado.

Com clara curiosidade, questiona, investiga, escarafuncha o motivo, que,
dia-a-dia, justifica o existir do quarto, memorial a quem não mais o habita.
Seria, com certeza morbidez, solidão, amargura, ilusão;
precisa-se justificar, mesmo sabendo o inspetor que a tempos ninguém usa o quarto, pois então, existe em vão.

Com sorriso tímido, franco, confirma o anfitrião, o analisado, o desuso do quarto;
anos separado de seu dono, anos longe das risadas e brincadeiras.
É desconfortável, mas enfim admite a verdade que mantém o cômodo, o motivo: preguiça.

Neste instante, entre confusão e ira, curiosidade e indignação,
altera-se o humor do inspetor, inflamando-se-lhe a face e a fala, diante do desprezo que crê no anfitrião .
Do descaso, desprezo, que seguro constata e relata; preguiça, do analisado , sem dúvida é motivo suficiente ,forte e aparente, para que o dono do quarto dele se fazer distante, ausente.

Como , não entende, poderia o anfitrião, diante de tão encarnecida disputa,
anos a fio, no limite do extremo, admitir com raso sorriso ser a preguiça, poluta,
que o move, histericamente (relata),a manter o quarto.

Rindo inocentemente, mas nervoso, ansioso, olhou o anfitrião ao inspetor,o especialista,
nos olhos, e disse-lhe com firmeza : "Isto é apenas um cômodo, móveis e objetos, matéria ; seu dono,
creia, não vive, nem viverá nele. " ; deixando atônito o estranho, que já o despreza.

Calado, sem fala ou reação, relatando apenas, levantou-se bruscamente da poltrona o inspetor,
lugar onde se sentara para questionar o anfitrião, o analisado, aquele senhor.
Mais ágil, o anfitrião pediu-lhe calma e mais tempo, compaixão, negados com fervor.

Resistindo firmemente, o inspetor seguiu para a porta,
mas o anfitrião foi mais firme ainda, mais ágil.
Postou-se à porta, firme e inabalado, calmo disse: "Peço-lhe, com pureza d´alma,
que me deixe explicar-lhe, porque ali ninguém mora."; isto sei eu disse-lhe o inspetor, em resposta.

Constrangido, disse mais o inspetor : "O imponderável não se explica,
ainda mais sua preguiça, como sou paciente, e humano, creio que em nada levará ,
mas mesmo assim sendo, dou-lhe cinco minutos mais de meu precioso tempo, como presente.", e pôe-se a escrever.

Respirando fundo, e aliviado, agradeceu o anfitrião: "Explico-lhe, sem demorar, minha preguiça,
e o motivo pelo qual ali, no quarto, não se espera jamais, que venha o dono do mesmo morar;
seu dono era menino pequeno, quando aqui vinha, hoje mais velho, nada ali lhe servirá; seu dono,
era alguém que gostava de ali estar." disse, emocionado.

Seguiu, firme: "Abro a camisa e lhe mostro meu peito, leito de meu coração, o quarto verdadeiro de meu filho;
olhe meu rosto e veja as rugas, lembrança das noites insones, em que velei seu sono, em que rezei por sua
saúde, em que pedi perdão a Deus por meu pecados, e olhei por meu filho, ainda que dele distante.", afirma, crente.

Chorando continuou, com dificuldade : "Mostro-lhe meus cabelos, brancos, ralos,
carcomidos pelo tempo que espero em ter comigo meu filho;mostro meus braços,
que as vezes adormecem ansiando o abraço que não vem, e principalmente minhas lágrimas , purga de minha tristeza." ,diz.

Rouco, continua: "Aqui, sem pudor e sem culpa, são o quarto e os pertences de meu filho que mantenho zeloso.
Por muitos anos conservei o quarto que viu o senhor, com esmero , cuidado, esperança, calor;
hoje o conservo , mais alimento meu peito, meus cabelos e meus braços.", segue com dificuldade.

Controlando-se, tenta: "Mas logo percebi, que não era ali, no quarto, que habitava meu filho.
Morava em meu peito, leito de meus sentimentos; em meus olhos, testemunhas vivas de sua bela imagem,
seus trejeitos; em meus braços, e meus sentidos, que ainda o têm como quando não mais o pude , em contato.

Abri meu peito, como lhe abro a camisa, e nele cravei mais fundo meu amor, minha saudade; fiz de minhas lágrimas,muitas, a chuva que regas as mais belas flores, os meis verdes bosques, os mais puros rios, pelos caminhos onde meu filho passa.
Não são mais o símbolo da minha tristeza, mas o alimento de minha alegria, e da esperança.

Meus cabelos, senhor, não os perdi, nem os vi branquearem, os melhores doei-os para tecer cobertores e tapetes,para aquecer com meu amor a meu filho, mesmo que à distância.
Mesmo que somente em pensamento, ainda que em querer.

Assim, senhor, justifico de minha forma simplória, sincera, o motivo de minha preguiça: a espera.
Dias, meses, anos, até saber que ele não mais me quer ver, ou assim acredita sentir;sofri, penei, lutei, esperando, e hoje luto amando, em etéreo limbo.Como pode ver , a preguiça, senhor, é minha resistência e minha esperança, pois mantém vivo o símbolo dos anos perdidos.

Mas hoje percebo, que o quarto nada mais é , friamente,
que objetos inertes ,dormentes, estátuas;
totens criados pela inquidade, pela tristeza, maldade.

Amor é que, em verdade, é o quarto de meu filho; onde viverá sempre, onde nunca morrerá.
O quarto não é nada, senão a espera e a preguiça, santuário;
é o símbolo que mal espelha o que sinto, é a minha forma interior de lutar, de perseverar,
nunca será usado, mas só sairá daí pelas mãos de meu filho.

Lhe digo, esta é a parte minimamente visível, que mantenho ,à vista,
do que tenho em mim, e do que é meu coração, cheio de amor , alegria e esperança.
Mantenho para todos entendam ou acreditem, no que por meu filho sinto, algo invisível e indescritível.

Cinco minutos se passaram, findaram-se, e lhe disse, com franqueza, meus erros e motivos;
a eternidade não me bastaria, para fazê-lo entender a fraquza de quem me priva, de perder a preguiça,
e arrumar este quarto; me priva ao final , de abrir meu peito, desfazer este quarto e arrumá-lo novamente,
criando nobre leito, por justiça, de meu amado filho.

Por isso me decidi, que não me privam a preguiça, apenas as mãos dele hão de arrumar o quarto, que ele nunca mais usou." , moveu-se diante da porta, abrindo-a e deixando o especialista passar;
este, com a mão no relatório, a anotar, parou de escrever e enxugou as lágrimas e se foi sem nada falar.

São Paulo, 02 de maio de 2.004.

Luís Eduardo Bittencourt dos Reis
Equipe Permanente PaiLegal
www.pailegal.net

VOLTAR

imprimir imprimir     enviar texto


 
Na sua infância seu pai foi:
a. Ausente
b. Participava só qdo podia
c. Muito participante

 
Todos direitos reservados ao PaiLegal® 1999-2003