O administrador de empresas Henrique*, de 36 anos, cuida do filho Bruno*, de 3 anos, como uma mãe -é ele quem dá banho, prepara as refeições, leva e busca o menino na escola. Henrique conquistou a guarda de Bruno a duras penas, depois de um relacionamento breve e tumultuado com a mãe do menino. Ele defende a idéia de que os pais separados tenham o direito de requerer a guarda dos filhos tanto quanto as mães. 'Tenho capacidade e sensibilidade para criar uma criança', diz. Depoimento a Rosane Queiroz

O dia 5 de novembro de 2003 foi o primeiro dia do resto da minha vida. Em uma manhã de verão em Fortaleza, passei no fórum e recebi um papel branco, brilhante como uma luz no fim do túnel, que dizia: 'Autorizo o Sr. Henrique (...) a manter sob sua guarda, sustento e responsabilidade o menor Bruno (...)'. Abri um sorriso que não via estampado em meu rosto há muito tempo. Tinha acabado de ganhar a guarda do meu filho, Bruno, que na época tinha um ano e oito meses. Sentei para almoçar com um amigo e chorei um bocado, sentindo um misto de alegria, liberdade e sensação de missão cumprida.

Aquele papel simbolizava também o fim de um relacionamento complicado com Selma*, a mãe dele. Nos conhecemos em 2001, quando me mudei de Aracaju, onde nasci, para Fortaleza. Abri uma escola de inglês na cidade e resolvi fazer uma segunda faculdade na área de administração. Selma era minha colega de classe. Morena, de cabelo chanel, tinha 30 anos e uma filha de 2, de um ex-namorado. Começamos a sair e, em um mês, ela engravidou. Levei um susto. Eu sonhava em ser pai, mas de um jeito planejado. Não estava apaixonado, embora tivesse carinho por Selma. Mas sou contra aborto e acabei me encantando com a idéia de ser pai de repente. Disse a ela que não se preocupasse, que a gente ia morar junto. Ela queria o bebê, mas tinha medo de ter que assumi-lo sozinha, como tinha acontecido com a primeira filha.

Selma era vendedora em um consórcio, tinha um apartamento de três quartos, onde morava com a filha e uma irmã adotiva. Eu morava com meu sócio na sede da empresa. Ela sugeriu que eu me mudasse para sua casa. Relutei, mas não fazia sentido ela sair do apartamento para pagar aluguel. Aceitei -e os problemas começaram.

Com a convivência, percebi a ausência de interesses em comum. Selma adorava assistir a programas de fofocas, enquanto eu me esforçava para ver os noticiários. Eu fui ensinado, desde criança, a gostar de leitura, de música clássica. Meu pai é fotógrafo e minha mãe é formada em Direito e nutrição. Mas também aprendi a lavar louça, cozinhar, desde garoto. Ao chegar da praia, ouvia a frase: 'Pegue o que quiser e esquente seu prato'. Selma vinha de uma família muito simples do interior do Ceará. Até aí, nada de mais. Mas ela tinha modos grosseiros, como gesticular demais e falar com a boca cheia, que me incomodavam. Além disso, deixava todo o trabalho doméstico e os cuidados com a filha, Camila*, a cargo da irmã.

O ambiente familiar também era estranho: a porta vivia aberta, parentes e vizinhos entravam sem pedir licença, abriam a geladeira e davam palpites na nossa vida. Se eu reclamava, passava por anti-social. Selma se revelou ciumenta, me ligava dez vezes ao dia para checar onde eu estava, e tinha um gênio difícil. Senti isso num dia em que ela armou um escândalo num supermercado: a gente tinha preenchido uma ficha para adquirir um cartão de crédito, mas na hora do pagamento ainda não era possível utilizar o cartão. Selma pediu a ficha, picotou e jogou no rosto da atendente. Morri de vergonha.

Apesar dos problemas, curti a gravidez. Comprei os móveis do quarto do bebê, pintei as paredes de azul. Cuidei da alimentação dela, só faltei a um pré-natal. Fotografei o nascimento de Bruno, em março de 2002. Quando vi o bebê, meu mundo parou. Eu só sorria e pensava: 'Vou dedicar minha vida a esse menino'. Contratei uma babá, mas quando ele chorava eu é quem ia buscá-lo no berço para mamar. Selma se sentia cansada e se preocupou em dar mais atenção a Camila, que tinha ciúmes do irmão. Mas ela não fazia questão de dar banho nem de trocar o bebê. Eu e a babá fazíamos tudo. Achei estranho, mas fui levando.

Depois de três meses, Selma voltou a trabalhar. Quando eu chegava em casa, ia direto pegar o bebê. Selma tomava banho, deitava para assistir TV e já dormia. No sábado, ela dormia a tarde toda, enquanto eu brincava com Bruno e Camila. Eu queria muito que a relação desse certo, mas já estava desencantado. O ciúme piorou, ela checava os números discados no meu celular. Eu não tinha ninguém, vivia em função da família. Mas ela arrastava as discussões por horas, me seguindo pela casa, a ponto de eu ter que me trancar no banheiro para ter paz. Para piorar, passei por uma crise financeira, tive de fechar minha empresa e fiquei bem chateado.

Como eu tinha vendido meu carro -já que optamos por ficar apenas com o dela, para economizar-, Selma passou a aproveitar o fato de ser dona da casa e do carro para me humilhar. As brigas terminavam com a frase: 'Arrume suas coisas e vá embora'. Eu sempre dizia que levaria meu filho junto. Na hora da raiva, ela falava: 'Pode levar'. Eu não sabia até que ponto ela falava a sério, mas comecei a pensar em me separar e requerer a guarda de Bruno.

Quando ele estava com 1 ano e dois meses, depois de mais uma briga, resolvi levar a sério a 'permissão' de Selma para levá-lo embora. Coloquei minhas coisas e as dele no carro e fui para o meu trabalho, levando a babá. Avisei a irmã dela que devolveria o carro em seguida. Meu plano era ir embora com Bruno para Aracaju. À noite, Selma ligou para saber se o Bruno estava bem e disse, amigavelmente, que eu podia ficar com o carro por uns dias. Até perguntei se ela queria cuidar de Bruno na tarde seguinte, já que eu tinha um compromisso. Ela aceitou, mas aproveitou para levá-lo de volta.

Quando a babá me ligou, avisando, corri para o apartamento. Encontrei um 'circo' familiar, com mãe, irmãos e vizinhos e Selma dizendo que eu tinha 'abandonado o lar'. Para evitar mais brigas, voltei para casa, agora dormindo no quarto de Bruno. Há tempos eu tinha me afastado sexualmente de Selma, mas desse dia em diante ela se sentiu rejeitada, a ponto de dizer: 'Duvido da sua masculinidade', em público. Outra vez, na porta do trabalho dela, jogou chaves, pasta, agenda, em cima de mim. Quando os colegas saíram para ver o 'barraco', ela colocou a mão no ombro, gritando de dor, fingindo que eu a tinha agredido. Fui embora pasmo e calado. Em casa ela pediu desculpas, fiquei na minha. Meu controle emocional fazia parte da estratégia para ficar com Bruno. Para isso, ela teria de assinar uma declaração, me dando a guarda dele. Nas últimas brigas, eu tinha sugerido isso e ela disse: 'Assino o que você quiser'. Qualquer atitude impensada colocaria tudo a perder.

Um fato grave contribuiu para que eu quisesse tirar meu filho dali: o irmão de Selma se envolveu em um crime, estava foragido e ela o escondeu em nossa casa por três dias. Até ele ir embora, fiquei desesperado, não queria que Bruno convivesse com problemas desse tipo.

A gota d'água foi num domingo em que fiquei sozinho em casa e resolvi fazer uma faxina. Numa gaveta do quarto dela, encontrei dois boletins de ocorrência contra mim. No primeiro, ela dizia que eu havia 'furtado o veículo da família e seqüestrado seu filho'. Entendi por que ela tinha deixado o carro comigo, no dia em que levei Bruno. No outro, constava que era agredida moralmente por mim e que eu queria tirar o filho dela a todo custo. A sensação que tive foi de abandono, de estar nas mãos de uma pessoa perturbada e inconseqüente. Acredito que Selma gostava de mim, mas não sabia expressar. Ela tinha sido abandonada por vários namorados. Por pavor de ser rejeitada, deixava a raiva comandar. Não sei qual era sua intenção com esses BOs. Quando ela chegou, agi como se nada tivesse acontecido. Mas marquei uma data para sair de casa e disse que, para formalizar a situação, ela teria de assinar os papéis que pedi. Ela pareceu conformada, mas confusa. Uma hora dizia que eu podia levar Bruno, mas não assinaria nada. Depois mudava de idéia. Se eu sentisse que ela tinha algum conflito emocional por se afastar do filho, teria entendido. Mas era pura provocação. Acho que ela não acreditava que eu ia embora.

Para me garantir, gravei algumas conversas com um minigravador escondido na roupa. Dias antes da minha saída, ela começou chegar tarde, dando a entender que tinha um amante. Não me importava. Na véspera da minha saída, ela dormiu fora. De manhã, fui embora para um apartamento alugado. Saí sem meu filho, mas com esperança de buscá-lo em breve.

Todos os dias eu ia visitar Bruno. Selma passou a ligar para me lembrar de comprar leite, fraldas. Eu 'obedecia', tocava no assunto dos papéis, mas ela desconversava. Fiquei preocupado quando ela me ligou do trabalho dizendo que Bruno tinha cortado o supercílio brincando no parquinho. Atônito, corri para lá. Encontrei o irmão dela e a cunhada deitados no sofá e a irmã varrendo a casa. No rosto de Bruno ainda havia um filete de sangue. Levei-o ao hospital. Ele levou sete pontos, com anestesia geral. Minha raiva aumentava a cada ponto, mas mantive a calma. Quinze dias depois ela ligou dizendo que ele tinha caído e cortado a boca. Reagi aos berros, perguntando se ela queria matar meu filho! Mais uma vez o socorri, sozinho. Passei a achar que Selma transferia a raiva que sentia de mim para ele, por isso era negligente. Fiquei sem dormir, imaginando que ele poderia se machucar gravemente.

Uma tarde, fui ao apartamento e deixei a declaração para ela assinar. Ela ainda me 'cozinhou' por uns dois meses. Até que dei plantão no trabalho dela e finalmente consegui sua assinatura. Ela ainda provocou: 'Coloque aí que não vou dar pensão'. Dei entrada no processo e passei a lidar com a burocracia. Na entrevista com a promotora, contei os pormenores do caso. Não senti preconceito da parte dela, mas, claro, as informações seriam checadas com a mãe da criança. Selma esbravejou com a asssistente social ao saber da entrevista, mas ratificou que eu era ótimo pai. Só faltava a audiência com a juíza, mas não foi necessário: quando a assistente social foi à casa de Selma, sua irmã estava de saída, entregando Bruno e Camila para a vizinha tomar conta. Esse agravante encerrou o caso. Quatro meses depois da separação, com o papel da guarda em mãos, marquei o dia para buscar Bruno. Com ele nos braços, senti que estava começando uma nova vida, de alma lavada. Selma nem ficou para se despedir. Não sei se ela sofreu. Acho que me deu a guarda porque, na cultura em que foi criada, não é raro ter filhos e deixar com algum parente. Bruno, como era pequeno e apegado a mim, não entendia bem a situação. Eu dizia que a gente ia viajar, ele gostava da idéia.

Voltei para a casa dos meus pais, em Aracaju. Foi indescritível a alegria dos avós, que ainda não o conheciam. No começo, liguei para Selma semanalmente para que ele falasse com ela. No aniversário de 2 anos dele, ela ligou no dia errado. Depois mandou por correio uma roupinha. No Dia das Crianças, mandou um carrinho e um bilhete: 'Mamãe te ama'. Foi tudo. Ela chegou a passar 90 dias sem ligar. Ainda mando fotos e notícias de Bruno. Ele está com 3 anos, mas não pergunta sobre ela. Quando perguntar, vou dizer que ela mora longe. Ainda sinto raiva, mas não quero influenciá-lo.

Retomei meus negócios, optei por morar com meus pais, mas cuido dele pessoalmente. Lavo suas roupas, preparo a lancheira, dou banho, levo e busco no colégio. Nos fins de semana, brincamos em parques e praias. Estou sempre ao seu lado ou, talvez, ele ao meu lado. Assistimos a desenhos, comemos pipoca, juntinhos, cúmplices. Pretendo um dia me casar, talvez ter mais um filho. Tenho uma nova namorada, que gosta de Bruno e sabe que ele está em primeiro lugar na minha vida. No Dia das Mães, fui à apresentação dele na escolinha. Era o único pai no meio das mães, mandando beijinhos. Quando digo que sou pai e mãe, as pessoas acham legal. As coisas estão mudando, a Justiça já tenta ver quem tem melhores condições de criar o filho e não apenas a 'qualificação' de mãe. Mas ainda há pais que sofrem, impedidos pelas mães de ver os filhos. É preciso estabelecer ao menos a guarda compartilhada. Mantenho contato com associações de pais separados, como a Participais e Pai Legal(www. participais.com.br; www.pailegal.net), que lutam por essa causa. Tento ajudar outros pais com a minha experiência. Vivo para meu filho, tenho capacidade e sensibilidade para criá-lo. Posso estar cheio de problemas, mas, quando Bruno me abraça, esqueço tudo. É um amor infinito, indescritível.'

*Os nomes foram trocados para preservar a identidade do entrevistado

Fonte: http://revistamarieclaire.globo.com/Marieclaire/0,6993,EML1005795-1749-3,00.html

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